sábado, agosto 16, 2008

Viagens de aventura: França

Hoje em dia as pessoas viajam com tudo pago, com guias... é um modo de viajar a que se chama fazer turismo. Para alguns, isto é quase o contrário de viajar, pois não tem aventura nem inesperado. Tenho viajado assim algumas vezes, mas não sempre.
Vou contar-vos a primeira vez que fui a França.
Fui com a Emília, que agora vive lá e com um amigo que tínhamos nessa época, bonitinho, simpático, pouco dotado para as línguas...
Nenhum de nós tinha dinheiro, mas o desejo era grande. Decidida a transformar o desejo em vontade, eu, que sempre tive jeito para viajar, talvez seja a única coisa paera que tenho jeito, decidi pelos três. Vamos para França no dia de tal e marquei uma data, já que a viagem tinha sido adiada muitas vezes, talvez até de um ano para outro.
Perante esta obrigação, eles foram à cidade mais próxima comprar umas coisas de que precisavam. Ao regressar, imaginem, tinham arranjado uma boleia com um emigrante português, o Sr. Manuel, para o Sul de França, creio que Lyon.
Lembras-te, Emília? A Emília ainda anda por aqui...
E lá fomos no dia previsto. O Sr. Manel era um querido, mas punha no gravador do automóvel uma múisica horrenda e muito romântica, só para emigrantes, sempre a mesma...
Muitos anos depois essa música foi aqui vulgarizada pelo cómico Hermano José e ridicularizada... por ser coisa de ignorantes... mas a verdade é que ninguém em Portugal conhecia tal música. Essa foi a parte chata da viagem... Emília, esqueço-me dos pormenores...
Eles também nos arranjaram uma casa de um emigrante (imaginem!) no Norte de França. Fomos para lá e depois para a Normandia, onde tínhamos amigos franceses que trabalhavam numa fábrica de queijos, talvez "La Vache Qui Rit". Esses amigos arranjaram-nos boleia para Portugal em camions Tir dessa fábrica, mas só um em cada camion. Acreditam nisto? Pois é verdade.
Eu era nessa época uma pessoa extravagante, aparentemente sem muito sentido prático, mas na viagem descobriu-se que era muito desenrascada, o que foi importante para a minha alma e para sempre até agora.
Por esse motivo, arranjaram-me uma boleia que não era directa: primeiro ia num camion até Pont Mans e depois esperava por outro...
A continuar...
Cenas dos próximos capítulos: Pont Mans e comentários da Emília ( talvez em privado).

4 comentários:

Anónimo disse...

lembro-me que as Doce tinham de repente uma musica muito agradavel e uns textos com pinta...era um alivio ouvi-las! como musica de jazz depois duma banda militar!...

mas esse homem era generoso : lembras-te que depois de ter conduzido aquele tempo todo, cansadissimo (andou meio perdido em bordéus) nos deixou a cama dele, a unica do seu exiguo alojamento? lembras-te do orgulho dele ao apresentar-nos no café da cidadezinha onde vivia?
mais tarde, ao vir para bordéus confrontei-me regularmente com essa situação : a de funcionar como "caução cultural" para uma geração de emigrantes reduzidos à imagem de maçon/femme de ménage

essa nossa viagem foi uma coisa girissima e completamente surrealista : a começar pelo nosso proprio itinerario em terras de frança!

emilia

Nádia Jururu disse...

Lembro-me que os amigos dele nos ofereceram Ricard, a 1ª vez que bebi essa bebida.
E que fomos tomar café à Bélgica.
Vimos também uma catedral com o túmulo de um grande escritor místico... Bossuet?
E aquela terreola onde estivemso uma semana, acho eu...
Isto é que é viajar.
Encontrar. Descobrir.
Encontrar e descobrir algo que mais ninguém encontrou nem descobriu.

Nádia Jururu disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Interessantissimo! Conte mais. Conte.

Abraços
Andarilha