sábado, abril 25, 2009

Santos

Já disse no meu perfil que me interesso pela vida dos santos, mais ainda pela dos santos medievais, que tem mais de ficção que de realidade.
Quanto ao Santo Condestável, não é figura que me desperte qualquer simpatia.
Os santos em geral são figuras rebeldes e extravagantes, que chocam a mentalidade da época e sobretudo os seus pares, que não os consideram superiores. Às vezes chocam a mentalidade da sua época por parecerem retrógradas, mas se têm sucesso em termos de futuro, é porque estão à frente do seu tempo e não atrás, como parece.
É o caso de Santa Teresa de Ávila, sobre a qual vi ontem um filme. Quando entrou para o convento, as mulheres como ela andavam vestidas de sedas e cetins e tinham como criadas freiras pobres, esfarrapadas e descalças. Reagindo contra isto, fundou uma ordem que se regia pelas regras "antigas": todas as freiras eram iguais, todas se vestiam da mesma maneira, todas faziam voto voluntário de pobreza.
Isto nunca foi antigo, nem o é agora.
Quanto ao Santo Condestável, não entendo como consideram renúncia aos bens terrenos ter abdicado da maior fortuna do país em favor, não dos pobres, mas sim dos parentes. Quer isto dizer que os seus parentes eram a família mais rica do país e que o santo não estava propriamente ao deus-dará, até porque continuava a ter poder. É não menos verdade que no seu tempo muitos entravam para o convento após uma vida rica e até de pecado, como deve ter sido a de alguém que matou e mandou matar tanta gente. Era um costume da época.
Li agora que o Cardeal Policarpo afirma que D. Nuno poderia ter sido rei e que abdicou do trono em favor de D. João. Isso é um caso a ser estudado, pois nada disso se sabe ainda...
Também diz e é verdade, que esta personagem inspirou Camões e Fernando Pessoa. Assim é. Mas no caso de Camões talvez mais pelos feitos heróicos...
Não confundir heroismo militar com santidade.

Muitas pessoas como eu não gostam da personagem, por ter sido aproveitada por Salazar. Este tipo tinha tão pouco sentido estético, que sujava tudo aquilo em que tocava, ao contrário do rei Midas que transformava em oiro tudo aquilo em que tocava.
Como é que existe perto de mim uma igreja dos anos quarenta chamada Santo Condestável, se o santo não era santo nem é, ainda hoje?

2 comentários:

Anónimo disse...

Li ontem no JN que alguns dos ossos dele estão nessa Igreja depois de terem andado em "bolandas" por vários locais e em várias épocas. No artigo também dizia que fizera vários relicários com fragmentos dos seus ossos e lembro-me de há muitos anos ter andado em digressão e também passaram cá. Não sei se te lembras na altura chamaram àquilo "Missão" e hove muitas procissões e outras cerimónias e creio que nesse caso era um ossito dum dedo que viamos através do vidro. Parece que um desses relicários existente no Porto foi roubado e agora não se sabe onde está.

Intebe

Nádia Jururu disse...

Lembro-me bem pois fiquei muito (mal) impressionada com os ossos, que, como sabes, me horrorizam e talvez até venha daí... creio que eram vários, grandes, estavam numa caixa de cristal. Deviam ser os que foram roubados.
Lembro-me de ter pensado que os santos têm ossos como as galinhas. Não era para fazer humor, apenas uma constatação, é claro que não se devem mostrar essas coisas a crianças. No tempo do Salazar as crianças faziam tudo, até iam a funerais integradas em turmas da escola primária... lembro-me de ter ido a dois embora morresse de medo.