domingo, janeiro 22, 2012

Mísia: Senhora da Noite






Estou a ouvir, com muito prazer, mas também com uma atenção racional, digamos assim,  o disco que comprei outro dia, Senhora da Noite, da cantora Mísia.

Mísia empresta a voz, a expressividade, a paleta das suas próprias emoções, verdadeiras ou fingidas, o tom e o arranjo musical, às palavras poéticas escritas por diferentes autoras femininas, o que, nalguns casos, as valoriza muito e que nunca as desvaloriza nada.

Particularmente interessante a seleção de frases poéticas de Natália Correia (não deveríamos dar mais importância a esta figura incontornável da sociedade portuguesa, que tanta falta faz para declarar o óbvio, como costumava fazer, sendo o óbvio aquela parte do real que não se menciona? E em que todos nos encontramos, talvez por nos sentirmos parvos, já que o óbvio nos é apresentado como falso?). Destaco estas frases de Natália, muito belas, partilhando a nossa memória coletiva:

"Vou pelos campos de linho 
Do poeta Dom Dinis
Atirar a flor de pinho
Que onde cai é um país"

Também muito "docinho", muito querido", ou seja, muito verdadeiro e terno, o fado, prefiro dizer a canção "Fogo Posto" , tão engraçado, tão moderno e tão ingénuo, ao exprimir o ciúme e o sentimento de ter sido traída... 
A crer na página de amigos (não de fãs, mas de amigos), a cantora dificilmente terá sido traída e abandonada, ou, se o foi, mesmo se muitas vezes, terá podido esquecer tudo isso muito facilmente e sem dramas. Mas, ao ouvi-la, parece que nunca mulher nenhuma foi tão abandonada como ela, tão traída. Porque, neste disco,  simboliza a mulher, o arquétipo da mulher. Que importam as pequenas circunstâncias da vidinha quotidiana, numa época em que, noutro continente, a Ásia,  que Mísia conhece bem, existem viúvas de 10 anos, impróprias para o mercado do casamento para sempre, e mulheres que não chegam a nascer, por serem vítimas de abortos seletivos... não só nesses distantes países, mas mesmo no Ocidente, para onde se deslocaram pessoas com essa mentalidade.
"Senhora da Noite" é também  um fado muito belo, tanto nas palavras como na música e no canto.

Para não falar do inspirado "O Manto da Rainha" tendo como autora  a própria Mísia, o que resulta particularmente bem, como acontece com os fados de Amália, "Lágrima" e "Gaivota", se não me engano.

É um disco de fado com uma dimensão cosmopolita, pois não é outra a dimensão da importância da mulher no mundo. Em termos estéticos também, como se pode ver logo pela capa, em que Mísia está de perfil, fazendo lembrar as pinturas egípcias, que representavam toda a gente de perfil, por não terem a dimensão da perspectiva: Falta de perspectiva, será a crítica feita neste disco à sociedade? Evocação da figura de Cleópatra, tão misteriosa e tão dúplice... talvez como todas nós?

O vídeo, dirigido pelo ítalo- americano Turturro, acentua essa dimensão universal da canção, da música e mesmo do fado. E da Mísia.

Em Paris, Mísia cantará no Bataclã em 31 de Janeiro e em Lisboa, a 4 de Fevereiro, no São Luís.
O disco "Senhora da Noite" está à venda em toda a parte. 

Não cedamos àquela nossa idiossincrasia, muito portuguesa, muito fatalista, muito bacoca  e muito fadista, de admirarmos os nossos escritores, poetas e artistas, sobretudo aqueles que quase morreram à fome. Por não terem sido apreciados em Portugal em tempo útil. 

Nadinha

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