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sábado, janeiro 06, 2018

A Coluna de Fogo




Esta é a terceira sequência dos calhamaços que começaram com Os Pilares da Terra. É melhor ler nas férias, porque são todos muitíssimo absorventes, mas este tem o interesse de retratar as lutas entre católicos e protestantes em França e na Inglaterra dos Tudors.

O primeiro, Os Pilares da Terra, centra-se na construção das grandes catedrais góticas, com muita informação sobre os aspetos arquitectónicos, para além de focar diferentes aspetos da época, como a produção e tintura de tecidos.

Em todos estes livros, a ação decorre numa cidade inglesa inventada, Kinsgsbridge. As personagens centrais são inventadas, as personagens reais interagem com elas, dando-nos um panorama da Europa dessa época.  Dessas 3 épocas.

quinta-feira, fevereiro 02, 2017

O livro de Walter Hugo Mãe, recomendado para o 8º ano, como obrigatório, ainda...



Quando eu era ainda pequena, lembro-me de ter lido uma cena de violência sexual, não sei se física ou verbal, num livro de Branquinho da Fonseca.

Lembro-me da sensação de horror que só o meu intenso amor à literatura conseguiu ultrapassar.

Vem isto a propósito do livro de Walter Hugo Mãe, que deveria ter declarado claramente não ser este seu livro destinado a adolescentes.

A maioria dos nossos jovens já tem alergia à literatura, não precisa de ler um texto obsceno que nem entende, para encontrar um bom pretexto.

Outros talvez gostem... mas gostavam mais se a linguagem fosse assim em todas as páginas. E gostavam mais ainda se vissem algo assim num filme sem palavras.

É claro, no entanto, que a culpa não é do autor e sim de quem não leu o livro antes de o indicar como recomendável para o 8º ano em todo o país.



Ou pior , de que o leu e mesmo assim o achou indicado para o oitavo ano, talvez como livro obrigatório.

sábado, setembro 03, 2016

Feira do livro da Presidência da República




Esta feira do livro do Presidente serviu para demonstrar o que já se sabia: as principais editoras portuguesas publicam muitos livros de autores portugueses, mas é quase tudo lixo. Lixo caríssimo, com desconto a maior parte dos livros custava 14,99 Euros e que ninguém compra pois saía quase toda a gente sem livros.
Como quase só publicam livros comerciais, mainstream, ficam muito atrás dos congéneres estrangeiros. E os que são diferentes não os publicam.
Mas os jornais vão dizer maravilhas.

A ideia de fazer está feira é boa e é agradável que o palácio de Belém se torne mais acessível e mais visitável.

sábado, janeiro 16, 2016

Pai Nosso de Clara Ferreira Alves


Pai Nosso de Clara Ferreira Alves é um livro chato. Interessante, lê-se como se fosse uma reportagem, mas ao fim de 114 páginas de reportagem, já chega. Li até essa página com algum esforço, parei e não me apetece continuar.
As reportagens nunca têm mais do que 10 páginas. E os romances não são reportagens. Nem crónicas.
É claro que o livro tem ambições internacionais. Só se for como reportagem sobre tema da atualidade, muito bem documentado. Mas talvez romanceado...

terça-feira, setembro 09, 2014

Filme A Viagem dos Cem Passos: França e Índia na culinária





Até há pouco tempo, a culinária era considerada uma profissão menor, relegada para o gueto das profissões em que não era exigida uma licenciatura.

Em Portugal, pelo menos. Em França sempre foi uma arte maior, tal como a costura e outros "artesanatos"... enfim.

O que se reflete na literatura. Foi necessário o advento das mulheres escritoras, sobretudo em fins de Século XX, para que a cozinha, a comida e a culinária pudessem emprestar à literatura as impressões sensitivas: o gosto, o olfato, o tato, neste caso, das texturas...

Enfim, a literatura quase descobriu o prazer de viver. Sendo que as mulheres contribuíram muito para isso, opondo-se às elucubrações pessimistas e decadentes da poesia e da narrativa, dominadas pelos homens, até então.

E finalmente, o cinema. Há agora filmes fantásticos como este, A Viagem dos Cem Passos apelando para os prazeres da mesa.

Este filme tem todo o apelo comercial dos filmes americanos, mais a paisagem francesa, mais o requinte das especiarias indianas, muito mais antigas do que tudo isto. E ainda a referência (vaga) à problemática da direita francesa, contrária à emigração e à diferença, no oposto dos ideais de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, também difundidos pelos franceses e ao contrário do Hino, A Merselhesa, que é reacionário.



quinta-feira, julho 31, 2014

O elefante de Nantes e Julio Verne














Nantes é a terra de Julio Verne.
Nantes teve os estaleiros navais que construíram os maiores paquetes do mundo. Foram encerrados em 1987. Passaram para o porto de mar mais próximo.

Sobraram enormes estaleiros e grande espaço no que é considerado a Ilha de Nantes, pois fica no espaço entre os dois braços do Loire.

Estão a construir num desses antigos estaleiros um parque temático, com animais animados, uma enorme árvore de metal onde colocam vasos de plantas, etc...

A par disso, há a construção das Máquinas, assim se chamam e ainda se realizam estudos botânicos, para ver como reagem as plantas a diversas altitudes. Por cima, ficará um pássaro que voa, levando gente, uma garça real. Já existem protótipos, mas tudo em ponto pequeno.

No entretanto, empregam muita gente e já têm muitas visitas, mesmo se ainda têm pouca coisa.
Há também um carrossel com figuras marinhas e marítimas do Julio Verne.
Este elefante é o ex-libris das máquinas e quase de Nantes.

(Última foto: projeto em ponto pequeníssimo da árvore giagante que vai ser feita, com estes bichos sobre ela, incluindo o pássaro.)

sábado, março 08, 2014

Dia da Mulher e Haréns Turcos





Neste dia da mulher que agora termina, inscrevo aqui um romance de Pierre Loti, As Desencantadas (Les Désenchantées). (Clicar para obter a  versão integral online).

A ação decorre em Istambul nos inícios do Século XX. As mulheres da alta sociedade são muito instruídas e muito ocidentalizadas, educadas por professoras europeias, mas vêem-se confinadas aos haréns e à vida que sempre levaram as suas antepassadas.

As personagens do livro conseguem estabelecer contacto (no meio de perigos terríveis) com um famoso escritor francês, que adivinhamos ser o autor, porque tinha já escrito um livro em que as defendia. Contam-lhe então  a sua triste e monótona vida, enquanto estiolam na solidão e na sombra.
A ideia é que escreva para elas este romance, exatamente com o mesmo título. 

É um belo livro, com maravilhosas descrições de Istambul, narrado com uma sensibilidade quase feminina.

Parece-nos às vezes que a mulher ocidental já conquistou tudo ou quase tudo, mas ainda hoje, noutros países, vivem ou sobrevivem mulheres que não têm nenhum direito.

Como diz Aun Sun Kyi: "Usa a tua liberdade para promovera  nossa!"

Excerto do Cap XXIV (final do capítulo):


"Um vento agreste gemia nas árvores. A velha Yriané, uma das nossas escravas, um pouco feiticeira, que sabe ler nas borras do café, pretendia que este dia era favorável para ler o nosso destino. Trouxe-nos café, que era preciso beber; passava-se isto ao fundo do jardim, num recanto abrigado pela colina, e parece que ainda a vejo sentada aos nossos pés, entre folhas mortas, ansiosa por ver o que descobria. Nas chávenas de Zeyneb e Mélek só viu divertimentos e presentes: eram tão novas ainda! Mas baixou a cabeça ao ler a minha. "Oh! O amor vela", disse, "porém o amor é pérfido. Passará muito tempo antes que voltes ao Bósforo, e, quando voltares, terá voado a flor do teu bem-estar. Pobre criança, pobre criança! No teu destino só há amor e morte." com efeito, só este Verão aqui voltei, depois do meu triste casamento. Todavia, foi a flor do meu bem-estar que voou, posto que o bem-estar nunca o conheci... Não é verdade? Mas nunca a sua predição final me chamou tanto a atenção como agora: "No teu destino só há amor e morte." Djenana"  Pierre Loti


sábado, fevereiro 01, 2014

SOBRE A PRIVACIDADE. DO FACEBOOK, POR EXEMPLO

Quando falamos de privacidade das redes sociais, falamos de intimidade, claro.
A intimidade que os escritores e sobretudo os poetas, sempre expuseram "urbi et orbi".
A intimidade que tanto procuramos esconder e tanto revelamos sem querer.
A intimidade dos outros, que tanto nos faz aprender com eles e com todos e com tudo.
A intimidade, que pode ser tão inventada, tão fingida, como o fingimento poético.


Vejamos uma frase de Clarice Linspector, que trata o assunto de forma magistral, antes de existir o Facebook.



“A minha intimidade? Ela é a máquina de escrever. Sinto um gosto bom na boca quando penso.Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.Depois de certo tempo, cada um é responsável pela cara que tem.E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão.É uma infâmia nascer para morrer, não se sabe quando nem onde.Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.Na arte, a inspiração tem um toque de magia, porque é uma coisa absoluta, inexplicável. Não creio que venha de fora pra dentro, de forças sobrenaturais. Suponho que emerge do mais profundo ‘eu’ da pessoa, do inconsciente individual, coletivo e cósmico.Não é saudade… Eu tenho agora minha infância mais do que quando ela decorria.Não me posso resumir, porque não se pode somar uma cadeira e duas maçãs. E não me somo.O fato de ter nascido me estraga a saúde.O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo.”
— Clarice Lispector.

sexta-feira, dezembro 27, 2013

Livro para ler: sobre Madame de Montespan



Comprei ontem à tarde, na estação de comboios de Campanhã, um livro difícil de parar de ler: Montespan. Custou cinco Euros, mas neste link custa só três.

É sobre o marido de Madame de Montespan, a amante favorita do rei Louis XIV.
Como quase todos os romances históricos, não é grande coisa no aspeto literário, é mais um best seller e uma espécie de reportagem jornalística sobre a época, mas tem particularidades interessantes.

Em primeiro lugar, Luís XIV foi de tal modo extraordinário, para o bem e para o mal, que merece os inúmeros romances históricos escritos sobre personagens que o circundaram: o jardineiro, como O Jardineiro do Rei, os cozinheiros, como Vatel, sobre o qual se escreveram livros e fizeram filmes, as amantes e agora o marido da amante. Foi uma escolha inteligente, que permitiu ao autor inventar tudo o que quisesse. E nem é necessário inventar muito porque a própria realidade é incrível.

A outra graça do livro é que o autor reproduz os costumes nojentos da época, o que quase todos os escritores evitam. Recordamos logo a cama real coberta de percevejos do Memorial do Convento, de José Saramago, mas este livro vai muito para além, recriando outros pormenores, como o hábito que nobres e reis tinham de defecar em público, por exemplo.
Às vezes talvez confunda mesmo a lenda coma realidade, o que também é natural, como quando afirma que Luís XIV só tomou banho uma vez e se benzia com água benta em vez de se lavar. Tem graça, mas talvez seja exagero, motivado pela ideia transmitida pelos médicos da época de que a água fazia muito mal.
Ainda não acabei de ler, mas estou a tentar não ir a correr pegar nele...

Recomendo também O Jardineiro do Rei, talvez até um livro melhor do que este.

quarta-feira, novembro 27, 2013

Entrevista com Marguerite Yourcenar: "Não, eu não acredito nas pátrias exclusivas"




Encontramos aqui uma magnífica entrevista com Marguerite Yourcenar, um dos meus escritores favoritos.
Não é permitido incorporar o vídeo, razão pela qual aqui fica apenas o link e a foto da mesma época. Não tem tradução para português, mas tem para espanhol.

Marguerite Yourcenar - Apostrophes


Excerto da entrevista, que traduzo:

- Voltemos à sua paixão pela Grécia: a senhora [você] é meia francesa, meia belga, agora americana, e no entanto, eu diria que a sua verdadeira pátria é a Grécia.
- Bem, não me parece. Eu creio que tenho dúzias de pátrias.
- Dúzias?!
- Sim, claro.
- Quais? Gostaria de as conhecer...
- Os países de que gosto mais? Na Europa? [Divaga, com ar sonhador]
- Tenho uma paixão pela Áustria, uma paixão pela Suécia, uma paixão por Portugal, uma paixão por Inglaterra. A literatura inglesa alimentou-me tanto, que é, certamente, uma das minhas pátrias.
-Sim?
-Sim.
E gosto muito da Ásia. Estudei tanto as literaturas asiáticas, que sinto ter uma pátria asiática, tanto como uma pátria europeia.
- Sim?
- Não, não, eu não acredito nas pátrias exclusivas. Tal como não acredito nas mães insubstituíveis.

terça-feira, novembro 19, 2013

Deve um inspetor da polícia "defender a ordem numa sociedade corrupta?




Sinto-me esquisita, entre arrepiada e ignorante, quando ouço chamar elite aos nossos políticos. Arrepiada, como se ouvisse dizer que o Hitler era uma criatura boa, um santo. Não é uma questão física, é algo que chega ao corpo, por absoluta incapacidade de continuar no espírito.

Elite? Os Passos Coelho, os Josés Pintos Sócrates? Não creio que seja este o conceito de elite, no dicionário das línguas de raiz europeia.

Elite: Alexandre Quintanilha, Richard Zimler, muitos outros, mencionados neste vídeo e muitos outros que todos conhecemos.

Esta é uma entrevista de Richard Zimler sobre o "nosso" país: o mundo. Deve um inspetor da polícia "defender a ordem numa sociedade corrupta? 

"Eu acho que não vamos conseguir dar a volta  situação com esta passividade" - afirma o entrevistado.

Já li o livro. Adorei.
Livro: A Sentinela. Autor: Richard Zimler


sexta-feira, outubro 11, 2013

A Sentinela de Richard Zimler

Este romance policial, lançado esta semana em Lisboa,  retrata o Portugal contemporâneo, corrupto, decadente, em crise, referindo figuras como o Miguel Relvas. Os assassinatos da corrupção, de que ninguém fala.




VER AQUI ENTREVISTA

Quando digo que, com tanta corrupção, tem de haver também muitos assassinatos, chamam-me dramática e imaginativa. Porque só se ouviu falar de um e mesmo esse foi no Brasil. O de Duarte Lima. Esquecem-se de que Duarte Lima foi uma importantíssima figura política do PSD e do regime.

A acção do romance decorre em Lisboa e no Colorado, Estados Unidos. Um dos seus temas é a violência doméstica. Entre outros.

domingo, outubro 06, 2013

8 de Outubro, 2013: Lançamento de Livro - A SENTINELA




8 de Outubro, 2013: Lançamento de Livro - A SENTINELA 

de Richard Zimmler

18h30, no Corte Ingles (Piso 7). Daniel Sampaio apresentará o livro.

http://www.zimler.com/conteudo.php

É possível ler o 1º capítulo em inglês, aqui 

quarta-feira, julho 03, 2013

Afinal, basta cuspir-lhes em cima

O motivo próximo para a demissão de Gaspar foi terem-lhe cuspido, num supermercado onde foi com a mulher.

Então, fizemos tantas greves gerais, tantas manifestações, tantas lutas que não tiveram qualquer efeito e bastou que cinco ou seis pessoas tentassem cuspir no Gaspar para que se demitisse e caísse o governo?

Esta gente costuma ser recebida com grande respeito, pompa e circunstância, com aqueles carrões pagos por nós a dar um ar de importância... o povinho facilmente se desbarreta perante símbolos do poder ou de dinheiro. Mas é por pensar que pode ganhar alguma coisa com isso.

Sempre disseram que Gaspar não tem a noção da realidade. Nem ele, nem os outros políticos.

O Soares avisou, chamaram-lhe senil. Mostrando grande respeito por um político  a sério..

VER AQUI

Faz-me lembrar o livro J'irai cracher sur vos tombes , romance policial de Boris Vian, publicado, como os outros policiais, sob o seu pseudónimo Vernon Sullivan. Também em filme.


terça-feira, maio 28, 2013

"Aquela escritora preta muito famosa"

- Olhe, viemos agora da feira do livro e estava lá aquela escritora preta muito famosa!
- Escritora preta muito famosa? Quem ?
- Então você, que entende dessas coisas, não sabe quem é a escritora preta que é muito famosa?
- Não conheço nenhuma escritora preta muito famosa!
- Não conhece?!!!
- Vocês viram-na?
- Sim, vimos, ela estava a fazer uma palestra e nós estivemos lá, a ouvir.

Este diálogo passava-se entre a Nadinha e um grupo de conhecidos, que gostavam de parecer ricos, cultos e très chic... ricos, não eram...

- Mas então, vejam lá se descobrem como se chama essa escritora preta muito famosa!
- Ah, já sei! Chama-se Mia Couto!
- Ah!!! Eu, por essa descrição, não chegava lá!
LOL

Parabéns ao Mia Couto, aquele escritor africano e branco de pele, muito famoso, que acaba de ganhar, muito merecidamente, o Prémio Camões.


VER AQUI A NOTÍCIA

sexta-feira, abril 26, 2013

Os Guerreiros do Arco-Íris



Um dos mais belos livros que já li, Os Guerreiros do Arco-Íris. É o primeiro do escritor indonésio Andrea Hirata e já existe em filme, que nunca passou em Portugal.
Narra uma história autobiográfica, cuja ação decorre numa miserável escola numa ilha remota, com dois professores não pagos, que trabalham noutra coisa para se sustentarem e com dez alunos.
Narra os milagres de abnegação dos professores e os milagres de entusiasmo e de capacidade de sonho dos alunos.

O autor consegue transmitir-nos a alegria, a inocência, a inconsciência e a espontaneidade da infância.
Nesse aspeto faz um pouco lembrar A Criação do Mundo, de Miguel Torga, a ler obrigatoriamente também, se ainda não conhece.

Ver aqui entrevista com o autor e excertos do filme.


domingo, janeiro 27, 2013

Livros inspirados nas uvas e no vinho

Acabo de ler Ervamoira, um romance histórico abarcando várias gerações do fabrico do vinho do Porto e descrevendo a própria cidade do Porto em diferentes épocas.
Escrito com espantosa sensibilidade e com um surpreendente conhecimento da história cultural, económica e demográfica da região, aliados a uma inventiva que lhe permite narrar inúmeras estórias interessantes e originais, a obra de Suzanne Chantal consegue também mostrar o essencial da vida e do mundo, como se vistos através uma embriaguês, que apaga os contornos, sem ocultar a beleza do mundo, ignorando a monotonia dos dias e referindo vagamente, embora sem as esquecer, as partes menos belas da natureza humana.




Um outro livro que reli agora, foi O Catalão de Noah Gordon, também romance histórico, cuja ação principal decorre numa região vinícola espanhola, catalã, uma pequena quinta onde se cultiva uma vinha de fraca qualidade, que só serve para fazer vinagre. 



O protagonista vai viver para França, por razões políticas e / ou económicas, sem que exista grande diferença entre as duas razões, onde aprende como fazer vinho a sério, regressando à quintinha de vinagre, que já nem lhe pertencia... e mais não conto.





Nas duas obras, e talvez em muitas outras, o vinho serve de inspiração, tanto para a atitude dionisíaca perante a vida, como para o seu oposto, o trabalho duro, o dever...

É  a seiva, arrancada à pedra e à terra *, que circula pelos copos e pelos corpos, enchendo-os de prazer, moderado ou excessivo, a seiva pela qual o homem se supera a si mesmo, fazendo algo que a natureza não lhe ofereceu, e talvez mesmo Deus não lhe tenha oferecido.

Algo que se fabrica, de forma alquímica, com sangue, suor e lágrimas e riso e alegria e festa. E morte. E constante recomeço. Que são o resumo mesmo da vida. 


* O bom vinho só se dá em terrenos pedregosos e inóspitos. Ver a propósito uma improvável vinha que fotografei nas Canárias, em Lanzarote, em terreno vulcânico e seco. AQUI.



quarta-feira, agosto 08, 2012

Bloomsday? E por que não o dia do Dessassossego?

Sabem o que é o Bloomsday?


É um dia feriado na Irlanda, para comemorar o dia narrado no romance Ulisses, de James Joyce. A obra refere a "odisseia" de Leopold Bloom durante 16 horas do dia 16 de jinho de 1904, pelas ruas de Dublin, fazendo apenas coisas vulgares. É um livro imenso e chatíssimo, que pouca gente consegue ler até ao fim (a Nadinha nunca conseguiu, apesar de ser uma leitora compulsiva que até lê cartas, cartazes, listas de compras, ementas, etc).

Aparentemente, os poucos que conseguem ler até ao fim, adoram. 
No dia 16 de Junho na Irlanda e noutros países, celebra-se este romance, por exemplo, comendo o que comeu o Bloom, fazendo o que fizeram as personagens, o que é obra, dado que não fizeram nada de anormal.


Parece claro que, sendo a Irlanda um pequeno país muito nacionalista e orgulhoso, valoriza o pouco que tem.

E se nós fizéssemos o mesmo, em vez de embandeirarmos em arco porque tivemos uma medalha de prata nos Olímpicos que foi quase de ouro? E que é uma vergonha por ser tão pouco. Mesmo que fosse uma única vitória em ouro. 


O dia do Desasossego, o dia dos Maias, o dia do Amor (de Perdição), o dia da Blimunda, o dia... não digo mais por serem demais os livros bons. O dia do tio Luís (de Camões), o dia da Menina e Moça, o dia do tio Gil, em que se comia cabrito como no Auto da Índia, ("a metade dum cabritinho")...



O primeiro, dia do Desassossego, talvez seja o mais viável, dado que a Casa Fernando Pessoa já o tem, juntamente com várias ideias ligadas ao desassossego, propostas pela sua atual e ótima Directora, Inês Pedrosa. E que a palavra é muito expressiva, sendo que tudo e mais alguma coisa pode ser feito neste dia...



Poderia começar pela Câmara de Lisboa, tornava-se feriado em todo  o país, depois no Brasil... até já temos o precedente de o nosso dia nacional ser o de Camões, um poeta...


O dia do tio Pêro: da "Carta do Achamento do Brasil", dia que tinha pano para mangas. Na verdade, tinha pano para um fato. Facto? Fato? As pessoas poderiam fantasiar-se de Índios e de Descobridores, poderiam fazer muitas coisas que são narradas... nadar, andar de barco, sei lá... comer o que deram a comer aos índios no nau capitaina... até podia ser um dia de nudismo.

Vou enviar esta proposta à Casa Fernando Pessoa. Aos políticos não dou ideias. Roubavam-mas e ainda me acusavam de plágio. E tinham logo equivalência a escritores.

domingo, março 11, 2012

O Capitão Alatriste



A Rendição de Breda, Diego Velásquez

O Sol de Breda, romance histórico / romance juvenil de aventuras, escrito por Peres Reverte, é um dos vários livros deste autor que narra as aventuras e "desaventuras" do Capitão Alatriste, sob o ponto de vista do seu admirador e amigo Iñigo Balboa, que foi seu "mochileiro", digamos que foi seu pajem, quando era criança e jovem... O romance situa-se temporalmente na época da conquista da Flandres, situação histórica que é retratada nesta pintura.

E quem é este Capitão Alatriste? Numa primeira impressão, parece ser uma criatura ficcionada, totalmente inventada, mas não é. Trata-se de uma personagem simultaneamente real e mítica, um militar heróico, que foi referido por escritores espanhóis como Calderón de La Barca e até foi representado nesta tela de Velásquez.
Embora todos lhe chamassem capitão, foi quase sempre soldado raso, pois, assim que era promovido por atos de bravura, logo o despromoviam por indisciplina, ou por entrar em duelos com pessoas de classe superior...
Inigo Balboa, que veio a ser um nobre respeitado, escreve as suas memórias, em que narra as muitas aventuras que viveu com Diego de Alatriste, por terra e por mar, durante o reinado de Filipe IV rei de Espanha (o malfadado Filipe III, rei de Portugal). 
Neste livro são ficcionadas ambas as personagens reais,  sendo narrador o jovem, e são enfatizadas a coragem, a bravura, a indisciplina, a tendência amoral do exército espanhol, de que fazia parte o exército português, claro. 
Neste período da nossa história que desejaríamos esquecer, talvez gostemos de recordar como foi estranho, grandioso, realmente incrível.. É de recordar que Espanha detinha, nessa época, todas as colónias portuguesas.

Se, por um lado, é uma exortação da grandeza passada de Espanha, do Século de Ouro ou Siglo de Oro, não deixa de ser também uma denúncia das suas grandes misérias. Sem esquecer o orgulho espanhol. O exército português fazia, então, parte do espanhol, tal como o italiano, daí ser italiano o herói desta "rendição", Ambrósio de Spínola.

Neste livro, Diego de Alatriste e Inigo Balboa participam na conquista da cidade de Brede, na Flandres, cuja rendição é retratada na pintura de Velasquez "A Rendição de Breda", sendo figura principal o genovês Ambrosio de Spinola, à direita, na imagem. Como pormenor curioso, descobriu-se recentemente que a figura / retrato do Capitão Alatriste estava nesta tela, como o afirma Iñigo nas suas memórias, mas foi apagada (o que se vê radiografando a pintura e comparando-a com o seu manuscrito). Também foram apagadas as referências a Alatriste de uma peça de Calderón de la Barca, provavelmente, num caso e noutro, por ordem real.


Estranho, no mínimo. Apagado oficialmente das memórias oficiais, o Capitão Alatriste chega até nós, moderno e popular!
Escrevi isto porque me pediram, para ajudar a promover a leitura junto de jovens, sobretudo de romances históricos, ou algo assim.


E para quando um romance português com personagens contemporâneas de Gil Vicente, de Camões, de Vasco da Gama, escrito com orgulho, ironia que permita a distanciação do passado e sem sentimentos de inferioridade, nem demasiados complexos de culpa?


sábado, março 10, 2012

Sobre Agustina

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O mundo de Agustina

Rádio Renasceça




Agustina Bessa-Luís já não escreve. Está lúcida, mas não escreve. Neste vídeo, os familiares próximos falam dela como se fosse uma pessoa muito invulgar e estranha. E é.