quinta-feira, setembro 14, 2023

Não Percas a Rosa

 



No centenário da Natália Correia, recordo muitas vezes um episódio. Eu andava a escrever a primeira tese universitária sobre a sua obra (ninguém queria fazer ou orientar essas teses por medo dela) e ia muito regularmente ao Botequim, onde participava das tertúlias constantes que lá se faziam. Se ainda não leram, vale a pena ler o livro muito interessante da Natália “Não percas a Rosa” um diário do PREC em que quase tudo acontece neste restaurante-bar, pertencente ao seu terceiro marido.  

Comecei a interessar-me por política, pois a Natália fazia questão que eu me sentasse na mesa dela ou na do Dórdio Guimarães, o quarto marido, desde que eu lhe disse que estava a fazer a tese. Comecei a ler os jornais e a ver o telejornal, sobretudo ao sábado, antes de ir para lá, para poder participar ativamente das conversas.  

Um dia, o telejornal deu uma curta entrevista com o escritor David Mourão Ferreira, muito amigo da Natália, mas eu não percebi nada do que ele disse. Pensei: o que vou eu dizer à Natália? Que não percebi nada? Nem pensar nisso é bom! Não vou ao Botequim. Vou e digo que não vi. Vou e digo que percebi tudo. Não vou. 

Digo que o televisor se avariou, conjecturava eu já no táxi a caminho do Botequim. Pronto, digo que vi e finjo que percebi perfeitamente, digo que sim com a cabeça… quando lá chegar volto para trás e vou para casa… 

Mal entro no Botequim, dou um beijo à Natália, sento-me à mesa e a Natália pergunta- me imediatamente:

- A menina viu a entrevista com o David Mourão Ferreira na televisão ? 

- Vi.

- E percebeu alguma coisa? 

- Não… não percebi nada. 

A Natália ficou muito feliz com esta resposta e disse muito alto, dirigindo-se  a todos os que se encontravam no bar:

- Veem? Esta menina não percebeu absolutamente nada do que disse o David! Vou já telefonar ao David e dizer-lhe! Ó Sr. Bandola, ligue-me já o telefone para o David Mourão Ferreira.

Envergonhadíssima, aterrada, a pensar que estava a viver um pesadelo, pouco faltou para eu me meter debaixo da mesa ou fugir dali a sete pés, ao ouvir tais declarações. Mas a Natália explicou-me: também não tinha percebido nada, mas toda a gente que entrou no Botequim antes de mim e a quem fez a mesma pergunta, respondeu logo que tinha percebido tudo perfeitamente. 

Ao telefone, minutos depois, o “David” contou-lhe que nessa entrevista tinha dito cobras e lagartos da situação política e sobretudo de Cavaco Silva. Então os jornalistas cortaram todas as críticas que fez e emendaram as outras frases e o seu discurso de tal maneira absurda, que nem ele próprio percebeu nada do que disse no noticiário do Telejornal. 

Depois desta conversa, a Natália contou alto e bom som tudo isto , injuriou todos os outros frequentadores que se encontravam no Botequim e elogiou-me imenso, colocando-me nos píncaros, menina cultíssima, inteligentíssima, verdadeira, disse logo que não percebeu nada…

Completamente babada com tanto elogio dito em voz alta e naquele tom de voz da Natália, jurei para nunca mais voltar a ter as dúvidas que tinha tido e jurei para mim mesma que nunca mais iria fingir perceber o que não perceber.

E também jurei, é claro, que nunca iria perder a rosa.

sábado, setembro 02, 2023

Paz? para quê? Make War, not Peace

 Não tenho prestado atenção à política nacional nem a questões como a de um tipo que deu um beijo numa rapariga, a questão nacional está perfeita, no melhor dos mundos possíveis, por enquanto… 

Como dar atenção a essas niquices quando a Ucrânia já perdeu 400 mil soldados pobres, sendo que os heróis ricos pagaram subornos e atestados médicos falsos (até parecem portugueses) quando, entre a Ucrânia e a Rússia há muitos milhares de amputados, quando há tanta gente a sofrer horrores na Ucrânia e na Rússia, quando ninguém é a favor da paz exceto o Papa e pessoas que são criticadas por isso, quando a desumanidade se tornou bandeira daqueles que julgam defender a democracia e os direitos humanos? 

Quais são os direitos humanos do povo ucraniano que estão a ser defendidos neste momento, quais os direitos humanos dos russos que perdem filhos, maridos e pais nesta guerra que ninguém quer que termine, porque a comunicação social nos diz que é uma guerra boa?